Revisão Ortográfica
Prof. Jorge Henrique Vieira
Como
escritor cordelista
Eu
fui convidado um dia
Para
ouvir uma palestra
Numa
certa academia.
Era
um doutor bacharel
Falando
sobre o cordel,
Um
tipo de poesia
Há
anos classificada
Como
sendo inferior,
Chamada
de popular,
Porque
dela o escritor
Não
tem grau de formação,
Não
usa um anel na mão,
Nem
tem títulos de doutor.
O
preletor da palestra,
Um
defensor do cordel,
Pesquisador
renomado,
No
assunto é bacharel,
Igualando
a poesia
Com
as da academia,
Houve
ali um escarcéu.
02
Pois
um poeta acadêmico
Achando
ter mais saber
Que
poetas cordelistas
E
querendo aparecer
Falou:
- Está endoidando
Por
estar nos comparando
Com
gente sem saber ler.
Eu, estando ali presente,
Achei uma aberração,
Disse: - Moço, me desculpe
Por entrar nesta questão.
O senhor está errado,
Eu posso não ser formado,
Mas analfabeto não.
Você
se acha importante,
Mas
lhe falta a humildade
Para
dar valor o outro,
Mesmo
na simplicidade.
Um
poeta popular
Não
usa esse linguajar
Da
alta sociedade,
Mas respeita o semelhante
E dá valor ao alheio.
E onde não foi chamado
Não vai se meter no meio
Como você fez agora.
O palestrante de fora
Dar esta palestra veio.
03
Irritado
perguntou-me:
-
Quem és, eu quero saber?
-
Sou o que você não é
E
nunca virá a ser:
Um
poeta cordelista.
Esse
dom não se conquista,
Já
vem conosco ao nascer.
A poesia em cordel
Agrada a grego e troiano,
É igual a qualquer outra,
Não fica em segundo plano
E o poeta popular
É lido em qualquer lugar
Sem ser shakespeariano.
Ariano
Suassuna,
Uma
pessoa importante,
Usou
livros de cordel
Numa
peça hilariante,
O
Auto da Compadecida,
Tornou-se
mais conhecida,
Não
ficou só na estante.
Por isso, caro poeta,
Não queira se enaltecer,
Que até num analfabeto
Temos o que aprender.
Tem coisas que ele faz
Que você não é capaz
De lhe imitar ou fazer.
04
Carlos
Drummond de Andrade,
Este
poeta bacana,
Ele
escreveu um cordel
(Estória
de João-Joana)
E
já virou musical.
Eu
achei muito legal
Onde
a humildade emana.
Ser poeta evoluído
É ter consideração
Pelo trabalho do outro,
Trata-lo como um irmão,
Não querer diminuir.
Se queres evoluir,
Tenhas mais educação.
Ele
olhou para mim
Com
uma cara de espanto
Como
se dissesse “onde
Foi
que ele aprendeu tanto?”,
Mas
falou com ironia: -
Ser
membro de academia
Não
tens condições, garanto.
Os anéis de formaturas
Mostram que somos doutores
E todos Ph.D.
Alguns em vários setores.
O poeta de cordel
Nenhum possui um anel
Para mostrar seus valores.
05
O
valor de um ser humano,
Lhe
digo neste momento,
Não
se encontra num anel,
Mas
no seu comportamento.
Em
você está faltando,
Que
está se comportando
Quase
igual a um jumento.
Escritor que não respeita
O poeta de cordel
Devia se envergonhar
De usar no dedo um anel,
Pois não respeita a cultura
Na sua forma mais pura,
Vinda de um tabaréu.
Já
que se achas doutor,
Queira
dar-me uma lição,
Me
pergunte o que quiseres
Com
a sua formação.
Garanto
que não me ofendo.
Se
não souber, eu aprendo
E
lhe terei gratidão.
Na hora ele respondeu:
- Agora eu vou lhe provar
Que o seu estudo é pouco
Para estar neste lugar.
Se não souber as respostas,
Por favor me dê as costas
E pode se retirar.
06
Quem
inventou luz elétrica?
Me
responda essa primeiro.
O
inventor Thomas Edson.
Também
foi um brasileiro
Que
com a sua invenção
Nos
livrou da melação
Que
fazia o candeeiro.
E quem inventou o rádio?
Que faz a voz viajar?
Foi o Roberto Landell,
Que pôde a voz transportar
E com sonorização
Minha voz na amplidão
Vai até outro lugar.
Me
diga quem inventou
Também
radiografia?
Que
vê o corpo por dentro,
Coisa
que ninguém não via.
Foi
Manoel de Abreu,
Doença
não se escondeu
Mais
depois daquele dia.
Quem inventou o retrato?
Que mostra as feições da gente?
Antoine Hércules Florence,
Homem muito inteligente
E num retrato falado
Um bandido é encontrado
E preso rapidamente.
07
E
o soro antiofídico?
Pro
veneno da serpente?
O
grande Vital Brasil,
Cientista
competente,
Que
com a sua invenção
Já
salvou nesta nação,
Com
certeza, muita gente.
Quem inventou telefone?
Lhe digo de bom agrado
Primeiro Antônio
Meucci,
Mas depois foi ampliado
Por Alexandre
Graham Bell.
No Brasil, a Anatel
É quem tem gerenciado.
Quem
inventou geladeira?
Uma
mulher, não a minha
Foi
a Florence Porpart,
Que
sabedoria tinha.
Que
ela bendita seja!
Graças
a ela, a cerveja
Eu
tomo bem geladinha.
Na hora ali todos riram
Com esta colocação.
O acadêmico orgulhoso
Viu que perdeu na questão.
Quem estava no local,
Mesmo achando bom ou mal,
Aprendeu uma lição.
08
Eu
não quis neste cordel
Ofender
quem quer que seja,
Mas
exijo mais respeito
Com
a classe sertaneja
Nordestina
tão sofrida
Entre
as labutas da vida
O
que é bom sempre almeja.
Sou filho de um matuto
Que nunca aprendeu a ler,
Fez questão que eu estudasse,
Morreu feliz por saber
Que poeta eu me tornei
E hoje tudo que eu sei
Tenho que lhe agradecer.
Meu
pai, meu muito obrigado
Por
sua simplicidade.
Não
eras rico em dinheiro,
Mas
rico de humildade
E
de ti cada lição
Gravei
no meu coração
E
levo pra eternidade.
Leitores eu relatei
Aquela cena passada,
Lição que neste cordel
Vai ficar bem registrada
E o acadêmico teve
Sua soberba quebrada
Nossa
Senhora da Glória – 23/12/2021